O Verdadeiro Moulin Rouge

A despreocupação pela vida e a alegria de viver são as duas características que melhor resumem este período único na História da França. Foi um período de descanso entre duas guerras e um período de transição entre dois séculos: um período, no qual as barreiras sociais desapareceram, a revolução cultural dá esperança numa vida melhor para todos e uma rica profusão cultural que prometia bastante divertimento. A classe média misturava-se com a classe operária, e a cultura popular encontrava-se no seu auge. Nesta atmosfera, que favoreceu a criatividade artística, os círculos literários apareciam e desapareciam conforme as reuniões dos escritores, enquanto pintores e desenhadores foram especialmente inspirados por esta atmosfera alegre, por vezes, ultrajante, mas luxuosa e extravagante, que rompeu por completo com o classicismo rígido deste período.

Assiste-se ao nascimento de novos movimentos como o "Japonismo", que usou influências do estilo japonês na Arte Francesa. Um dos seus discípulos foi o famoso Toulouse-Lautrec. Toda esta atmosfera serviu perfeitamente para o aparecimento dos primeiros cabarés, tais como o Moulin Rouge em 1889.

Foi nesta época que o mundo se alterou: na arquitectura, Gustave Eiffel, um génio da arquitectura do ferro, deu início à construção da Torre Eiffel que poderia ser vista de qualquer sítio em Paris. Esta era a atracção principal da Exposição Universal de 1889.

Em 28 de Dezembro de 1895, procedeu-se à primeira projecção de um filme em público, graças aos irmãos Lumière.

Para a exposição seguinte, a de 1900, Hector Guimard ganhou fama. Na recente Arte Moderna, Guimard deu um estilo próprio aos sistemas de Metropolitano de Paris, das quais se destaca a "Blanche Station".

No meio de toda a agitação, Montmartre aparecia como um local simbólico. Em 1891, a Basílica de Notre-Dame do Sagrado Coração é inaugurada com pompa e circunstância. Era esperado que com a Basílica no topo da colina, se trouxesse de volta um pouco de prestígio àquele local mal frequentado. Porém, contra todas as expectativas, a proximidade daquele local sagrado com as encostas que se assemelhavam ao Inferno, apenas deram mais carácter àquela Meca da vida parisiense. Excêntricos e artistas continuaram a frequentar os cabarés, teatros de variedades e cafés em grande número, enquanto a classe média, aristocratas e semi-mundanos, que se sentiam cada vez mais atraídos pela vida nocturna, também se habituaram a frequentar esses locais. Os cafés-concerto tornaram-se o verdadeiro símbolo desta mistura de culturas e de estratos sociais. Operários, artistas, elementos da classe média e aristocratas juntavam-se na mesma mesa, num ambiente de divertimento, luxo, festim e frivolidade.

Entre estes cabarés, alguns tornaram-se famosos: o "Chat Noir" com os seus cenários de luxo, criados por Caran d'Ache, o "Mirliton", o "Folies-Bergères", o "Moulin Rouge"... Nestes, o público vinha para ouvir as músicas anti-convenções de Aristide Bruand, assistir ao universo de luxuria, prostituição, excentricidade e onde os desempregados e a classe baixa conviviam com os outros estratos da sociedade.

Aí, clubes de literatura, como os "Les Hydropathes", fundados pelo boémio Emile Goudeau ou os "Les Incohérents" e o seu gosto pelas discussões político-satíricas, eram, então, prósperos e altamente respeitados.

Também aí, os pintores foram beber inspiração; tal como Toulouse-Lautrec, um cliente habitual daquele bairro, que imortalizará estranhas e coloridas cenas, que ficam a meio caminho entre o puro entretenimento e a vida trágica das classes baixas, em quadros famosos, tais como "Le Chat Noir" e o "La Goulue". Toulouse-Lautrec foi um espectador privilegiado daquele esplêndido período e de entre os seus quadros, 17 foram directamente inspirados no "Moulin Rouge".

A 6 de Outubro, em Montmartre, a atmosfera era festiva: no jardim de Paris é inaugurado o mais famoso cabaré de sempre - o "Moulin Rouge".

O público acorreu em massa à "Place Blanche" para descobrir este sítio extravagante com uma enorme pista de dança, espelhos por todo o lado, galerias, que eram a última palavra em elegância que se misturava com a ralé da sociedade e com as raparigas de vida fácil, um jardim decorado com um grande elefante e passeios em burros para a satisfação das senhoras. A atmosfera era de tal modo selvagem que o espectáculo não acontecia somente em palco, mas por toda a parte: aristocratas e operários divertiam-se lado a lado, numa euforia geral.

Os donos do lugar eram Joseph Oller e Charles Zidler. Eles apelidaram o seu estabelecimento de "Le Premier Palais des Femmes" (o primeiro palácio de mulheres) e apostaram no seu sucesso, anunciando a quem os quisessem ouvir, que o "Moulin Rouge" se tornaria no mais esplêndido templo de música e de dança. No primeiro dia, as suas expectativas foram superadas: os outros cabarés, cafés e teatros de diversões tiveram de se comportar e render-se à magnificiência do "Moulin Rouge".

Os bailes do "Moulin Rouge" depressa se tornaram apreciados por todos. Nestes, o público descobriu, com grande entusiasmo, uma nova dança: o can-can francês, com as suas dançarinas - as "Chahuteuses" (as raparigas indisciplinadas) e o seu ritmo barulhento, o qual, para grande desgosto de algumas pessoas, fez mesmo rodar as cabeças. No Guia para as Noites de Paris edição de 1898, o can-can francês era descrito como um exército de jovens raparigas de Paris, que dançavam esta barulheira divina, da maneira que a sua fama lhes exigia, assim como a sua flexibilidade com a moral... (Entre as figuras que mais tarde viriam a ser guardadas para a posteridade, de destacar, uma vez mais, o famoso "La Goulue" de Toulouse-Lautrec.) Foi em 1861, em Londres, quando Charles Morton, inspirado pela Quadrilha, de Céleste Mogador, inventou o can-can. Enquanto os britânicos se continuavam a chocar com esta dança, no limiar da decência, em Paris, a popularidade do can-can continuava a crescer. O can-can estava a ser moldado progressivamente, até que se tornou uma dança ritualizada, exclusiva para mulheres, que mediam pelo menos 1,70m e se vestiam e mexiam de forma graciosa, mostrando a sua arte perante os olhos do público do "Moulin Rouge".

A dança que influenciou o can-can foi inventada em 1850, por Céleste Mogador: a quadrilha - oito minutos de tirar o fôlego em perfeita harmonia, com Offenbach como mestre da Música,

Sob nomes de palco coloridos e frequentemente chocante, as mais famosas dançarinas daquele tempo competiam no cenário do "Moulin Rouge", cada uma com o seu próprio temperamento. A maior figura do can-can francês é, ainda hoje, a famosa Goulue, com o seu inigualável humor descarado. Mas ela não foi a única a ganhar fama graças ao can-can: Jane Avril, mais conhecida por Jeanne, La Folle (Jeanne, a louca), La Môme Fromage, chamada assim por ser tão jovem, Grille d'Egoût, conhecida pelo seu gosto pelo barulho, Nini Pattes-en-l'air (com as pernas no ar) que viria a abrir uma escola de can-can francês, e Yvette Guilbert, foram algumas das dançarinas que se evidenciaram no "Moulin Rouge".

A única personagem masculina que se destacou foi Valentin, le Désossé (o desossado), também chamado de "Homem da Quadrilha".

Os primeiros 10 anos do "Moulin Rouge" levaram sucessivamente a noites cada vez mais extravagantes, inspiradas nos circos, cujas atracções eram mostradas no cabaré - tais como o Homem dos "gases" - permaneceram para sempre nos anais da História.

Em adição ao can-can francês, as primeiras revistas de teatro eram apresentadas: por exemplo, a revista "Circassiens et Circassiennes", em 1890.

Um início triunfal, mas que perdeu alguma da sua pompa ao virar do século. A 26 de Dezembro de 1902, o último baile teve lugar numa indiferença geral. A Quadrilha já não era fascinante, e o baile do "Moulin Rouge" tornou-se um teatro-concerto sob a liderança de M. Paul-Louis Flers, um conhecido director de teatro de Paris, que queria tornar o "Moulin Rouge" num lugar mais prestigiado. Dirigiu o famoso cabaré por... 9 meses (!!!)...

Até ao princípio da 1ª Guerra Mundial, o "Moulin Rouge" tornou-se um verdadeiro templo para a ópera. Uma vez mais, a música de Offenbach acompanhava os sucessivos espectáculos, com ligeireza, contentamento e alegria: o público estava presente para sonhar, rir, chorar e sentir emoções ao ver a "Voluptata", "La Feuille de Vigne", "Le Rêve d'Egypte", "Tais-toi tu m'affoles" entre outras peças de teatro.

Um dos seus pontos altos foi a noite da Feira Automóvel a 7 de Dezembro de 1904. Em 1907, a novata Mistinguett faz a sua estreia no palco do "Moulin Rouge", com a peça "La Revue de la Femme". Era apenas o início de uma longa história. Depressa, o seu excepcional talento "explodiu" em público: à medida que ela imitava a provocatória liga de Max Dearly, ela foi a instigadora da famosa Valse Chaloupée (um novo tipo de valsa) e assim se tornou uma estrela brilhante no firmamento dos cabarés musicais.

Após a 1ª Guerra Mundial, Francis Salabert dirigiu o "Moulin Rouge". Uma vez que ele era mais um homem de negócios, do que um homem de espectáculos, encarregou Pierre Foucret de cuidar da parte financeira e deixou a Jacques-Charles - o director de teatro número 1 daquele tempo - a tarefa de embelezar a grande Revista. Ele sonhou em montar um espectáculo com dançarinas americanas. Após muitos acontecimentos, ele conseguiu convencer Gertrude Hoffmann, então directora do "Hoffmann Ballet", a juntar-se a ele e juntos criaram a revista "Nova Iorque - Montmartre".

No topo da lista estavam as irmãs Dolly, Rosy e Jenny, as primeiras irmãs gémeas na História dos musicais. O estilo da Broadway foi visível quando eles entraram nos cenários parisienses. Na noite do primeiro espectáculo, Mistinguett, que era conhecida como a Rainha dos Musicais, estava na plateia. Ela compreendeu que uma verdadeira revolução estava a acontecer.

Jacques-Charles e Mistinguett tinham uma relação tempestuosa, mas bastante proveitosa... Muito próximos entre si nas suas vidas, colegas inspirados no palco, a sua história foi pontuada por querelas e reuniões, com zangas e reconciliações... Uma paixão turbulenta que deu origem a criações lendárias: a "Revue Mistinguett" em 1925, o famoso "Ça c'est Paris" em 1926 e outras grandes noites com a Miss e as suas raparigas, que animaram as notes parisienses até 1929, data em que eles se retiraram de cena. Entretanto, o can-can francês ganhou, novamente, prestígio. Uma certa Gesmar, de apenas 20 anos de idade, tornou-se uma "expert" na concepção dos fatos. Os seus desenhos e modelos, que revelavam beleza pura de cortar o fôlego, sempre permaneceram associados à imagem do "Moulin Rouge". Ao mesmo tempo, um jovem chamado Gabin, estreava-se em cena como um "badboy" em Paris.

Depois da partida de Mistinguett, tudo se alterou. O cinema (a 7ª Arte) tomou conta dos cabarés e o "Moulin Rouge" não foi excepção. Contudo, o "Moulin Rouge" continuava a ter grandes momentos de actividade: o "Cotton Club", as noites de "Ray Ventura and His Collegiens"... alguns momentos inesquecíveis antes dos anos negros que se seguiriam...

De 1939 a 1945, Paris não tinha muito divertimento sob o domínio alemão. O único momento de destaque teve lugar alguns dias antes da libertação de Paris, com Edith Piaf, cujo talento havia sido reconhecido, a cantar no palco do "Moulin Rouge". Na primeira parte do seu espectáculo, actuará um jovem, vestido de cowboy: Yves Montand. Entre eles havia então uma troca de palavras menos agradáveis...

Houve que esperar seis anos depois do fim da 2ª Guerra Mundial, até que o "Moulin Rouge" recuperasse a sua antiga magnificência.

A 22 de Junho de 1951, Georges France (Jo France), comprou o salão de baile do "Moulin Rouge" e empreendeu grandes obras de modo a conceder ao famoso cabaré o seu esplendor de tempos atrás e ganhar o prestígio das noites de Paris de antigamente.

Festas de dança, entretenimentos e recepções para a caridade estavam de volta... Entre eles, o 25º "Bal des Petits Lits Blancs" (para crianças hospitalizadas), a 19 de Maio de 1963, foi um marco na história do "Moulin Rouge": cerca de 1200 artistas e estrelas vieram de todos os cantos do mundo, para honrar Guy des Cars, o organizador da noite.

Em 1955, Joseph e Louis Clérico tornaram-se os dirigentes do estabelecimento e estavam ávidos de continuar a grande tradição dos Bailes populares. Juntaram-se a Jean Bauchet, um nome mítico do teatro, para acompanhar o cabaré a entrar na Idade Moderna.

Uma pequena revolução teve lugar no cabaré: uma cozinha foi construída. Os jantares-espectáculo do "Moulin Rouge" tornaram-se uma das mais procuradas atracções parisienses. A sua fama voltou a aumentar. De todos os cantos do Mundo, as pessoas chegavam para ver o "Moulin Rouge", como se fosse um dos grandes monumentos da mais bela capital do mundo.

Novas estrelas evidenciaram-se no "Moulin Rouge": Charles Trenet, Charles Aznavour, Lire Renaud, Bourvil, Roger Pierre e Jean-Marc Thibault, Fernand Raynaud... entre outros. O próprio Elvis Presley, quando vinha a Paris não dispensava uma ida ao "Moulin Rouge".

A famosa quadrilha, então pela liderança da exigente Doris Haug voltou aos corações das pessoas.

Em 1962, Jacki Clérico, filho de Joseph Clérico, sucedeu ao seu pai na liderança do mais famoso cabaré do mundo. O "Moulin Rouge" voltou a ganhar o seu lugar lendário. Dois anos depois da sua chegada ao "Moulin Rouge", Jacki embarcou numa nova aventura: a construção de um aquário gigante, onde dançarinas nuas se moveriam como maravilhosas náiades, perante os olhos deliciados da plateia...

Escolheu apenas nomes começados por "F" para as suas revistas: Frou Frou, Frissoon, Fascination, Fantastic, Frénésie... Cada uma sucedendo a outra, até culminar na memorável Formidable, a revista do centenário, pela qual, ainda hoje, o público se mostra entusiasmado.

Estrelas do mundo do espectáculo, música, cinema, famílias reais, grandes magnatas... todos se reuniram na Place Blanche a 12 de Fevereiro de 1988 para celebrar 100 anos desta instituição venerável inteiramente dedicada ao luxo, festa e prazer...

E até hoje assim se mantém... a lenda do "Moulin Rouge".

Sobre o Filme

 
Todo o material contido neste site é propriedade da 20th Century Fox.